
Casa
Há uns anos, instalaram-se em minha casa algumas pessoas. Recebi-as de braços abertos. Alimentei-as, dei-lhes abrigo, sorri-lhes e aqueci-lhes os corações. E elas, o que fizeram? Começaram por destruir a mobília. E quando já não havia nada para queimar ou reduzir a pó, partiram janelas, esburacaram o chão e passaram ao telhado, onde rasgaram fendas impensáveis. E sempre esmurrando-se, empurrando-se, insultando-se, como se de bandidos se tratassem.
Agora, a minha moradia está moribunda. E os seus habitantes ainda não se aperceberam que estão prestes a ficar sem lar. Embrulham-se em cobertores, vagueiam por entre os escombros do caos de que são autores e admiram-se pelo vento que sentem assobiar, pelos gemidos que ecoam na estrutura carcomida. Eles ainda não se aperceberam, mas em breve, a minha casa vai expirar uma última vez. Não haverá teto nem chão que os proteja.
Como é possível nenhum deles ter tido a lucidez de evitar o que se passa? Os mais velhos não vão ter onde morrer, as crianças onde crescer, bebés sonhados onde nascer. E foram adultos que fizeram isto: destruíram, sem remorsos, sem hesitar ou pensar duas vezes, a casa onde vivem. E agora, apenas lhes resta esperar pelo fim.
Assinado,
Terra
Em memória da Conferência Rio+20 e de mais uma oportunidade perdida para fazer alguma coisa pela única casa da humanidade. De que servirá ultrapassar crises económicas, políticas ou sociais se formos incapazes de manter vivo o planeta em que habitamos? Que será de nós, dos nossos filhos e de todos aqueles que amamos?
Coordenadora Pedagógica da Licenciatura em Comunicação e Jornalismo
Investigadora do CICANT - ECATI
Coordenação da Redação LOC
As Perspe(c)tivas regressam em Setembro.

