
Deturpada
“Parece que sempre que a estabilidade da sociedade é afectada por crimes, guerras, crises económicas ou algum «pânico social», é atribuída responsabilidade aos media”, revela Denis McQuail, no livro A Teoria da Comunicação de Massas. Uma perceção que pode ter um fundo de verdade, considera o teórico: “não excluímos a possibilidade dos media serem realmente mais influentes em certo sentido em tempos de crise”. O itálico, sublinhe-se, é dele.
Quando há boas notícias a dar, a informação entretém, faz companhia e pode ser divertida. Mas quando as más notícias se sucedem torna-se incómoda. E até nociva. Há uns meses, um cardiologista proibiu uma paciente com mais de 80 anos de ver notícias, para evitar emoções excessivas. Torna-se oportuno lembrar que várias ditaduras vingaram em momentos sociais especialmente difíceis, de desespero e falta de esperança. E a primeira coisa que um regime autoritário faz é silenciar os media e matar o jornalismo. A partir daí, tudo passa a correr noticiosamente bem.
Importa então inquirir se os media são tão poderosos ao ponto de estarem por trás da crise, como alguns chegam a afirmar. Devia ser evidente que não. Mas o que não é tão evidente, mas não devia ser esquecido é que em tempos de crise a responsabilidade social dos media aumenta e muito. Exagero e sensacionalismo quando se cruzam tempestades trazem consequências bem diferentes daquelas que teriam se os tempos fossem de bonança.
As pessoas estão assustadas e querem perceber o que se passa. Os media, por seu turno, estão condicionados pelas suas rotinas de produção, têm de dizer muito em pouco e tão depressa quanto possível. Tempos complexos exigem contextualizações mais ricas e explicações mais aprofundadas. E quando os media amplificam – sem enquadrar – acabam mesmo por contribuir para uma consciência deturpada e ainda mais negativa da crise.
Coordenadora Pedagógica da Licenciatura em Comunicação e Jornalismo
Investigadora do CICANT - ECATI
Coordenação da Redação LOC

