
Ignorância
1º Caso Real
“Professora, estou com uma depressão mas, por favor, não diga nada!”
2º Caso Real
“Seis meses à procura de trabalho e nada! – o desalento tolhe-lhe a voz.
Andas tão mal... Se calhar devias ir ao médico...
O quê? Ao médico dos malucos? Para quê? Para me enfrascar? Era o que mais faltava! Nunca! Não sou homem para isso!”
Quando alguém parte uma perna, vai ao hospital para lhe colocarem gesso. Se não o fizer, é irresponsável, ficará com um membro defeituoso e dores para o resto da vida.
Quando a pressão do dia-a-dia se torna insustentável, procura “controlar” a situação, “aguentar-se” e – muito importante –, esconder do mundo o que se passa. Quem confiaria em alguém que vai ao “médico dos malucos”?
Ser medicado para doenças psiquiátricas continua a ser visto como atestado imediato de loucura. Quando o caso não é passageiro, ou seja, quando há um problema crónico – semelhante à diabetes, por exemplo – pode significar “enfrascar-se” para o resto da vida. Que vergonha!
Depois, terá de suportar o olhar de pena de quem se apercebe e os comentários do tipo “Epá! Como é que ele não consegue ultrapassar a coisa?”
Por “coisa” entenda-se a doença. E ninguém pede a um diabético para tentar controlar “a coisa”.
No campo da psiquiatria, tudo é diferente. Como se a mente fosse exterior ao corpo e o facto de o local afetado não se ver significasse ausência de uma doença física. E como se os psiquiatras não fossem médicos e a medicação não servisse para tratar problemas que, realmente, existem.
Em pleno século XXI a ignorância generalizada no que diz respeito a estas questões é, não só medieval, como de uma irracionalidade que entristece, assusta, e deixa muitos seres humanos a sofrer sozinhos.
Coordenadora Pedagógica da Licenciatura em Comunicação e Jornalismo
Investigadora do CICANT - ECATI
Coordenação da Redação LOC

