
O mundo a preto e branco ou da facilidade de encontrar culpados para a crise
De forma recorrente quando se fala nos problemas da economia e da sociedade Portuguesa, o tema da educação surge no topo das listas das “causas do nosso atraso”. Neste como em muitos outros casos não é de todo óbvio qual a causa e qual o efeito: temos uma economia com claras dificuldades de encontrar um rumo e soluções para o seu crescimento porque possuímos um défice no domínio educativo, ou temos um défice no domínio educativo em função de crónicas deficiências de financiamento e organização do nosso sistema de ensino superior?
Muitas são as vozes que sem apontar claramente o dedo a uma causa se limitam a de forma cáustica assinalar a baixa qualidade dos nossos cursos e instituições. Torna-se por isso curioso verificar que de forma recorrente, nomeadamente em períodos de crise, os nossos recursos humanos mais qualificados conseguem com relativa facilidade enveredar por uma carreira internacional sendo o seu perfil de formação e as suas qualificações apreciadas por empregadores e chefias a um nível internacional.
Somos assim confrontados com um paradoxo curioso: em casa as instituições e os cursos são maus e por isso formam mal as pessoas e por isso a economia não se desenvolve, mas, espanto dos espantos, quando se deslocam do nosso belo rectângulo no cantinho da Europa os nossos recursos são possuídos por um conjunto de novas qualidades e de repente já são óptimos cientistas, engenheiros, profissionais de comunicação ou saúde!
Importa por isso de uma vez por todas pararmos de nos convencermos que temos um problema grave com a qualidade do nosso ensino superior e nos preocuparmos sim é com as condições ambientais macro que claramente impedem empresas e indivíduos de darem o seu melhor e provarem as suas qualidades no contexto nacional. O nosso problema não é nem um problema de cursos a mais ou cursos a menos, nem um problema de mais ou menos doutorados por número total de alunos, o nosso problema é o de criar condições para que todas as instituições desenvolvam mecanismos efectivos de transferência para a sociedade daquilo que sabem fazer e que fazem bem.
Para que isto aconteça temos de acabar com o peso esmagador de uma regulamentação que não liberta as instituições para a criação de valor e transmissão de conhecimento, mas antes as encerra numa espiral de compromissos e documentação, temos de perceber que o problema do financiamento é um problema dos indivíduos e não das organizações, e que são os primeiros e não as segundas, que devem ser os destinatários do investimento do estado enquanto instrumento de promoção do desenvolvimento colectivo; temos de perceber que a nossa rede de ensino superior não pode continuar a ser construída em função de interesses particulares ou resultados de processos internos de avaliação e deve sim ser pensada em função daquilo que verdadeiramente importa, o desenvolvimento do nosso país e o futuro daqueles que hoje continuam a apostar nele. É este o esforço que temos de fazer.
Manuel José Damásio
Professor Associado
Escola de Comunicação, Artes e Tecnologias da Informação
Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias
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