Ao longo da última década, a explosão dos novos meios, apesar de não terem tido tão fortes consequências no consumo dos meios tradicionais quanto se poderia supor, determinou novos paradigmas relacionais.
Audiências médias dos meios na década 2000-09 (base 2000 = 100)
| 2000 | 2009 | |
| Televisão | 100 | 103,6 |
| Imprensa | 100 | 116,6 |
| Rádio | 100 | 98,4 |
| Cinema | 100* | 95,4 |
| Internet | 100 | 607,5 |
Fonte: Dados Marktest, “Uma década de audiências”, 2010.
* A base de audiências de Cinema refere-se a 2005.
Se tivermos como base as audiências médias apuradas em 2000, verificamos que as audiências dos meios tradicionais se mantiveram relativamente estáveis, enquanto a Internet teve um crescimento fenomenal. As explicações sobre o comportamento do consumo dos meios tradicionais são relativamente simples: apesar de “substituída” pela Internet nas classes etárias mais novas, a televisão apresenta um ligeiro crescimento explicado pelo alargamento da oferta dos operadores de TV Cabo; a imprensa apresentou um franco crescimento, em muito explicado pela proliferação dos jornais gratuitos que criam hábitos de leitura em quem não os possuía; o pequeno decréscimo das audiências de cinema poderá ser explicado pelo fenómeno da pirataria, enquanto a rádio se manteve estável. A Internet passou de uma audiência média de 17.1% em 2000 para 53,9% em 2009, representando um crescimento acima dos 600 pontos percentuais ao longo da década, o que implica uma nova relação dos indivíduos com os media. Esta relação parte do pressuposto de que os meios tradicionais é que controlam a forma e o modo como os indivíduos são expostos às mensagens dos meios - o que implica estratégias que procurem o consumidor - e que nos novos meios são os indivíduos que escolhem o modo e o momento da sua exposição às mensagens, o que significa ser-se procurado pelas audiências numa lógica de relação mútua ou, pelo menos, com algum grau de envolvência.
Diversos investigadores tentam analisar estas novas relações. No estudo desenvolvido pelo Pew Research Center acerca de conteúdos jornalísticos nos diversos meios, podemos verificar que estas relações terão que ser repensadas.
News Topics Across Media Platforms
January 19, 2009 - January 15, 2010*
| Blogs (% of stories) | Twitter (% of stories) | YouTube (% of videos) | Traditional Press (% of newshole) | |
| Politics/Government | 17% | 6% | 21% | 15% |
| Foreign Events (non-U.S.) | 12 | 13 | 26 | 9 |
| Economy | 7 | 1 | 1 | 10 |
| Technology | 8 | 43 | 1 | 1 |
| Health and Medicine | 7 | 4 | 6 | 11 |
*Twitter was tracked from June 15, 2009 - January 15, 2010
Fonte: Pew Research Center
O quadro demonstra claramente que a procura de conteúdos difere de meio para meio.
Segundo este estudo, mais de 99% dos conteúdos dos Blogues surgem ligados através de links a sites de agências de notícias tradicionais. Este facto leva-nos à questão: o que acontecerá a essas ligações se o acesso a terceiros for restrito? E, em oposição, como poderão os jornais captar a atenção de muitos dos seus utilizadores que a eles chegam direccionados via blogues?
O Twitter, devido às suas limitações espaciais, é essencialmente utilizado sobre as premissas da Internet em tempo real, ou seja, notícias de última hora e sem a profundidade mais característica de blogues. Neste meio, é clara a procura de publicações relacionadas com tecnologia, em detrimento das questões políticas tão fortemente patentes nos blogues e imprensa tradicional.
Relativamente ao Youtube os destaques não tendem a ser notícias de última hora, visto que os vídeos tendem a ser mais demorados na sua edição e carregamento.
O estudo salienta assim os diferentes tipos de conteúdos e discussões que cada plataforma convoca, demonstrando a falta de harmonia entre as principais notícias dos media tradicionais e os tópicos que os utilizadores dos media sociais consideram relevantes.
Rui Estrela
Professor da Universidade Lusófona de Humanidades de Tecnologias


