Eventos

  • Próximos

  • Agenda

<<  Julho 2017  >>
 Se  Te  Qu  Qu  Se  Sá  Do 
       1  2
  3  4  5  6  7  8  9
10111213141516
17181920212223
24252627282930
31      
23/04/2014 - 15:24

Quando os pais são o problema dos filhos

“Um filho leva um murro no estômago cada vez que ouve os pais a discutir”, garante Joaquim Silva, juiz no Tribunal de Família e Menores de Sintra há catorze anos. Um dos testemunhos que, a 15 e 16 de Abril, deram corpo à III Conferência Internacional sobre Igualdade Parental, acolhida pela Lusófona.

Fernanda Palma tem 42 anos. Natural de Angola, veio para Portugal em 2004. Nos braços trouxe Rafael, hoje com 13 anos, e para trás ficou o homem que os abandonou. Nesta família, o divórcio não misturou guardas-partilhadas nem pensão de alimentos. O medo de uma batalha judicial fez Fernanda desistir de pedir apoios. “Não podia perder o meu filho”, explica. Por isso, “passámos muita fome, mas nunca exigi nada ao pai do Rafael”. Apesar disso, garante que nunca tentou colocar o seu “menino”, como ainda lhe chama, contra o antigo companheiro. “Dizia-lhe apenas para que não culpasse o pai… Porque ele não sabia ser pai”.

O caso de Fernanda e Rafael não é o habitual. Numa separação com filhos, a norma é pai e mãe intervirem ativamente. Os problemas começam antes, com as discussões que perturbam os menores e minam a sua autoestima. Para Eva Martins, psicóloga especializada em Educação Parental, o divórcio é um tema delicado. “A estabilidade emocional da criança tem de ser preservada ao máximo”, afirma, perentória. E em casos mais graves onde a criança é usada “como trunfo” é necessário atuar diretamente, defendeu na III Conferência Internacional sobre Igualdade Parental.

Acolhida pela Universidade Lusófona e organizada pela associação Igualdade Parental, com outras parcerias, a iniciativa reuniu psicólogos, mediadores, advogados, magistrados, sociólogos e jornalistas de vários pontos do globo. A 15 e 16 de abril discutiu-se no Campo Grande a “indissociabilidade da parentalidade”, em busca dos modelos certos para famílias felizes.

“E agora, também me divorcio deles?”

Quando há um divórcio, o mundo dos filhos ganha paredes “frágeis”, explica Eva Martins. Segundo a psicóloga, existe uma pergunta chave que os menores fazem sempre: “E agora, também me divorcio deles?” Mas há outras muito habituais, como “Tenho culpa dos meus pais se separarem?” ou “Vão deixar de gostar de mim?”

Rita Marrafa de Carvalho, moderadora da mesa de abertura da conferência, sobre “Famílias e a Resolução de Conflitos”, acabou por partilhar com o público a sua experiência. A jornalista da RTP, divorciada e mãe de dois filhos, confessa que dispõe de uma guarda partilhada com o pai dos menores e tudo corre bem. “Devo ser um caso raro”, pela positiva, disse ao LOC, à margem do seminário. A única preocupação que se lembra de ter tido foi decidir com o ex-marido “que palavras íamos utilizar para que a nossa filha não se sentisse culpada”. Com o irmão, de meses, nem esta questão se colocou.

Escutar e conversar para mediar

Fernanda Molinari, advogada especializada em Direito da Família, trouxe ao debate o papel do mediador. A diretora da Associação Brasileira Criança Feliz para o Rio Grande do Sul, explicou que o instrumento principal do seu trabalho é “a escuta”. Mas, para romper conflitos numa situação de divórcio, a palavra é também muito importante. “Se ambos tiverem amor ao filho que têm em comum temos de pegar nesse interesse e trabalhá-lo”, afirmou.

Também mediadora familiar, mas na Alemanha, Ursula Kodjoe defendeu o sistema germânico de “modelo de consenso”. O objetivo, explicou a psicóloga e terapeuta de família, é capacitar os progenitores de ferramentas que “promovam o bem-estar da criança”. Segundo Kodjoe, é essencial “separar as necessidades dos pais das necessidades dos filhos”. Há que agir rapidamente para evitar a alienação parental, ou seja, o afastamento por parte do pai ou da mãe do menor.

Pais em guerra

Alienação e rapto parental são duas consequências que “aterrorizam” qualquer pai ou mãe que se separa. Quem o diz é Miriam Alves, jornalista da SIC, que trouxe ao segundo dia da conferência a grande reportagem “Filhos de Pais em Guerra”, exibida em 2009. O trabalho da jornalista conta a história de famílias que viram o divórcio destruir-lhes a vida.
Miriam Alves destacou os dois casos que mais a marcaram – um pai que raptou os filhos e um casal que após a separação usou os menores como “arma de arremesso”. Esta última história, aos olhos da jornalista, tomou “proporções descabidas” e mostra como a lentidão da justiça portuguesa pode ajudar a “destruir a relação [do menor] com os progenitores”.

A demora na conclusão dos processos judiciais, garante Paulo Guerra, é justificada, pois “neste momento temos mais de oito mil crianças à espera de uma situação regularizada”. O juiz do Tribunal de Coimbra denuncia a falta de consenso entre os pais como uma das razões que faz os processos arrastarem-se durante anos e transforma os tribunais em verdadeiros “palcos de guerra”.

Famílias sem crianças não existem

Para o juiz Joaquim Silva, os casos de maus tratos são os “mais graves” que enfrenta. Guarda no coração o caso de Henrique, de 8 anos, que quando entrou a primeira vez no seu gabinete lhe disse “o meu problema são os meus pais, não me deixes!”. Os progenitores, explica, muitas vezes não têm consciência de que “um filho leva um murro no estômago cada vez que ouve os pais a discutir”.
O magistrado trabalha no Tribunal de Família e Menores de Sintra há catorze anos, intervindo na regulamentação das responsabilidades parentais, sempre com o objetivo de “proteger as crianças”. Mas será que as crianças perdem a família quando os pais se separam? A resposta de Joaquim Silva é clara: “a família não deixa de ser família, as crianças são a razão pela qual esta existe”.

Patrícia Franco
Redação LOC

 

Lido 4140 vezes Modificado a 25/08/2014 - 13:14

Parceria

logo-parlamento

Acordo Ortográfico

Os suportes comunicacionais do LOC são produzidos ao abrigo das regras estabelecidas no Acordo Ortográfico de 1990 e posteriores protocolos modificativos.

BLOG COMMENTS POWERED BY DISQUS