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11/03/2016 - 11:37

“Somos todos iguais nas nossas diferenças”

A vaga de refugiados, as questões que emergem do papel de Portugal no acolhimento e outras que têm urgência em serem debatidas tiveram voz na Casa das Artes, no dia 26 de Fevereiro.

Durante três horas, o público manteve-se em silêncio com os olhos cravados na tela gigante que passava o “Human” de Yann Arthus-Bertrand. Naquele tecido que se estendia no fundo da sala, os rostos que passavam refletiam histórias de experiências do quotidiano. Entre paisagens sublimes da Terra, aquelas pessoas, oriundas de todos os cantos do mundo, relatavam a essência do que significa ser humano. Yann demorou três anos a colecionar aquelas histórias e outras espalhadas pelo mundo. As histórias de amor, de ódio, de felicidade e de violência que ocupam o “Human”, transformam-no numa verdadeira ode à humanidade.

A organização foi responsabilidade do “NOS | Entre Iguais” que desafiou um debate, que se instalou posteriormente ao ambiente de introspeção que o documentário proporcionou. “O objetivo foi criar um clima que é urgente e fundamental, para discutir os desígnios da humanidade”, afirmou Joana Cabral, coordenadora do grupo de voluntariado. Segundo a mesma, o filme “ajuda-nos a perceber o que está por detrás da camada superficial que pode fazer parecer diferente o que no fundo é igual.”

A tela deu lugar às cadeiras dos oradores do debate. Os lugares foram ocupados por Pedro Calado, Alto Comissario para as Migrações; Gustavo Carona, representante do “Médico Sem Fronteiras”; Joana Morais e Castro, dirigente da Plataforma de Apoio aos Refugiados (PAR) e pela psicoterapeuta e professora catedrática Marina Lencastre.

Pedro Calado, que havia percorrido mais de 400 km para estar presente naquela noite, defendeu que existe uma urgência em “trazermos uma discussão séria, aberta que tenta sensibilizar a opinião pública para aquilo que são os valores civilizacionais.” De acordo, encontrava-se Marina: “Estes eventos são da maior importância porque não só nos põe enquanto comunidade, a refletir e a desmistificar algumas questões como também nos levam a compreender a realidade que se passa no mundo.” A dirigente da PAR salientou ainda a forma como ficou comovida por observar a sala cheia e “estática” no decorrer do documentário.

A crise humanitária de refugiados, as questões que pode levantar e o acolhimento em contexto nacional e europeu estiveram no cerne do debate.

Quanto ao papel de Portugal na receção aos refugiados, os oradores mantiveram uma posição semelhante. “Portugal tem feito a sua parte. Sozinho não resolve o problema, mas se todos os países colaborassem em conjunto, talvez fosse possível mitigar o problema”, defendeu o Alto Comissário para as Migrações. Como dirigente da PAR, Joana, salientou a tarefa que o país tem de abraçar: “O papel de Portugal não deve ser só de acolhimento mas também de apoio e de solidariedade para com os outros países da União Europeia”. Gustavo Carona, ainda que metade do seu tempo seja empregue fora do país nas missões de voluntariado que faz, tem uma opinião clara: “À nossa dimensão, Portugal deve ser o melhor possível. Não nos podemos por à parte, nem em termos políticos nem em termos humanos, da nossa obrigação na sociedade mundial.”.

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De acordo com os oradores: os refugiados devem ser acolhidos como uma possível oportunidade para Portugal. “O país está em défice demográfico e em défice migratório. Se os refugiados vierem por bem e forem bem acolhidos, como estão a ser os que já chegaram, poderão colmatar esta falha”, defende Pedro Calado.

Durante a discussão, foram levantadas questões morais que revelam ser problemas mundiais difíceis de ultrapassar como a injustiça, o medo e a desigualdade. Relativamente ao último, Marina Lencastre, recordou uma experiência realizada por um cientista com macacos, que pretendia estudar as reações do animal. O resultado diz-nos que o macaco revela agressividade quando perante situações de diferença de tratamento entre a mesma espécie. Com a experiência, a psicoterapeuta pretendeu que a sala refletisse o facto de a desigualdade ser percecionada até pelos seres irracionais.

“Human”, que impulsionou o debate, reúne traços de uma humanidade, que ainda que seja globalizada, desconhece a essência da vida. “O filme consegue juntar de uma forma magistral os depoimentos mais íntimos das pessoas, com uma visão muito ampla nas diferentes culturas e problemáticas que nos afeta a todos” defendeu Marina Lencastre. Uma multiplicidade de rostos atravessa o filme: uns mais morenos, outros mais brancos; uns mais velhos e outros mais novos; com cicatrizes ou com lágrimas nos olhos. Entre as diferenças que os distinguem, a essência humana une-os. “Somos todos iguais nas nossas diferenças”, salientou Joana Cabral. A relação que se foi estabelecendo do público com os rostos do “Human” foi testemunhada por Joana Morais e Cabral: “Somos humanos quando nos tocamos. Este filme toca-nos, sentimo-nos relacionados.”.

Não obstante às questões mentais que o documentário fez o público alcançar, Marina Lencastre salientou uma: “O que faz de nós sermos tão altruístas e tão entregues às pessoas e depois tão indiferentes aos que são diferentes de nós?”.

Gustavo Carona, que viu “realidades de difícil acesso à maioria”, defendeu que tinha opiniões que poderiam ser consideradas “bilaterais” por ter estado dos dois lados da situação. “Gosto de pensar que o que devemos fazer em primeiro lugar é a tomada de consciência” afirmou o voluntário do “Médicos Sem Fronteiras”. Carona associou o conceito “hipócrita” à sociedade: “Criamos movimentos de apoio no facebook, sensibilizamo-nos com questões como o Charlie Hebdo, mas não nos sensibilizamos com as zonas de conflito dos refugiados”. O voluntário apelou ainda a que a sociedade portuguesa não respondesse apenas aos apelos de “quem bate à porta” porque há “necessidade de procurar por quem precisa”. O orador criticou ainda o papel dos média: “Faz-me confusão que em períodos de eleições, por exemplo, não se fale de mais nada na televisão. Há mais coisas a acontecer.” De acordo com a experiência que tem vindo a viver, Gustavo sente tristeza por não existir “discussões mais profundas sobre o assunto, porque as pessoas são incapazes de ter uma opinião formada sobre o que se está a passar no mundo”.

O debate cessou, a tela foi recolhida e as cadeiras desocupadas. As vozes desapareceram e ficou o pensamento e a consciência de que é necessário e urgente ser solidário e “humano” para com o outro. Para além da superfície que nos distingue, na essência somos todos iguais.

Nádia Santos

Lido 1853 vezes Modificado a 30/03/2016 - 16:08

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