Todos os dias milhares de alunos entram na Lusófona sem sequer repararem nos edifícios da universidade. O campus já foi quartel militar, mas poucos sabem que o espaço hoje animado por aulas, investigação, praxes e festas nasceu há 170 anos como “Lusitânia”, a fábrica de lanifícios do Campo Grande.
“Quando entrei, [o quartel] estava completamente desativado, num estado degradado”. Foi assim que a funcionária Lili Verol encontrou em 1995 os edifícios que se tornariam o campus da Universidade Lusófona.
Criada em 1989, a instituição deu os primeiros passos no Largo do Leão, em São Jorge de Arroios, com bacharelatos em Biotecnologia e Recursos Humanos, conta Madalena Braz, relações públicas da universidade. Mais tarde, ainda no Largo do Leão, a Lusófona passou a disponibilizar cinco licenciaturas: Matemática, Ciência Política, Urbanismo, Informática e Educação Física.
Cedo foi preciso procurar um espaço que pudesse responder a tanta procura. Dividida em pequenos polos, “surgiu a necessidade de ter as instalações num local só”, recorda a responsável. Em 1995, a COFAC, entidade instituidora da Universidade Lusófona, adquiriu o edifício projetado por Aniceto Ventura Rodrigues. Os blocos A, B, C, E e G têm origem total ou parcial nas estruturas já existentes. E se as paredes falassem teriam muitas e muitas histórias para contar.
Era uma vez uma fábrica…
Em 1842, nos edifícios agora da Lusófona, é inaugurada a Lusitânia, também conhecida por Fábrica de Lanifícios do Campo Grande. Um ano agitado pelo Golpe de Estado de Costa Cabral contra o Absolutismo, que termina com a reposição da Carta Constitucional e lança as sementes de uma política económica liberal. Portugal assiste à defesa de um modelo industrial, e o Protecionismo, com a aposta na autossubsistência do país, está na origem do crescimento da indústria têxtil. A Lusitânia, empresa de cardação, fiação, tecidos e acabamentos, nasce assim em plena revolução industrial.
A par de outras empresas do sector como a Lanifícios Daupias e a Companhia de Fiação e Tecidos Lisbonense, a Lusitânia torna-se uma das maiores fábricas de Lisboa, com 84 operários. Segundo o historiador Jorge Custódio, foi esta unidade fabril que introduziu a mecanização na indústria de lanifícios em Portugal.
Em apenas seis anos, de acordo com dados do economista Oliveira Marreca, a fábrica já empregava mais de 150 funcionários e possuía uma máquina a vapor de 24 cavalos. Em 1848, a Lusitânia dava trabalho a mais de 450 operários fora da fábrica e em 1881 estava entre as 50 maiores empresas do país, em número de trabalhadores.
Entre o final da Monarquia Constitucional e a Implantação da República em 1910, Portugal vive um período de grave crise económica. O aumento de impostos, o agravamento das condições de vida da classe média e do operariado, o aumento do desemprego e a crise económica vivida na Europa no final do século XIX tiveram também consequências na Lusitânia. Tal como outras empresas, esteve totalmente imobilizada em 1908. Em 1917 tinha perdido o lugar na lista das 50 maiores unidades fabris do país, acompanhando o declínio da indústria de lã.
Quartel debaixo de fogo
Nos anos 30 do século XX os edifícios já tinham sido convertidos em instalações militares. Em 1931, o então quartel da Escola de Administração Militar do Campo Grande é bombardeado durante uma revolta falhada que tenta pôr termo à ditadura de Salazar. Nos anos 50 funcionava no Campo Grande o Quartel de Engenharia 1.
Durante a revolução de 25 de abril de 1974 é o 2º Grupo de Companhias de Administração Militar que está sedeado no quartel do Campo Grande. Os militares permanecem ali enclausurados até 1 de maio, aguardando pela confirmação ou não da vitória dos revoltosos. Todos manifestam o apoio à queda do regime marcelista e entre os oficiais milicianos está o ator Mário Viegas, já desaparecido.
O Batalhão de Transportes é a última unidade militar a funcionar no quartel do Campo Grande, até meados dos anos 90. António Pena, agora diretor da Licenciatura em Engenharia Informática no Instituto Superior Manuel Teixeira Gomes, do Grupo Lusófona, trabalhou na unidade de transportes do Exército como coronel TecnManTm, antes de regressar ao Campo Grande onde deu aulas durante vários anos. Conta que o quartel era um espaço formatado em “casernas, salas, refeitórios, paradas, oficinas, parques de viaturas, arrecadações, campos desportivos e outras instalações do âmbito militar”.
José António Pinto tem uma neta a terminar a licenciatura em Comunicação e Jornalismo na Lusófona. Em 1965 trabalhou no Quartel do Campo Grande como secretário. Apesar das obras de restauro, ao nível das estruturas ainda existentes assegura que “está tudo igual”. Por motivos de preservação do património histórico, a fachada do edifício na entrada da universidade, conhecido como Bloco A, não pode ser alterado.
Alexandre Pereira, professor de Linguagens de Programação na Lusófona, recorda-se de quando o quartel era uma unidade de Transportes. Foi aí que fez “o exame da carta de pesados”, revela. “O espaço de salas de aula foi crescendo à medida das necessidades pedagógicas”, relembra. Alguns dos edifícios originais “foram aumentados, e outros criados de raiz”. Um caso paradigmático de conversão é o atual Bloco G, que correspondia às garagens do quartel. Começou por ter apenas um piso com quatro salas de dimensões capazes de receber turmas de mais de 100 alunos. Hoje divide-se em quatro andares com dezenas de salas teóricas, laboratórios de informática e outros serviços.
No futuro: crescer, crescer
A Lusófona tem passado por um processo de constante crescimento. Novos edifícios, a criação de diferentes espaços de investigação e o investimento em tecnologias marcam os 23 anos da universidade.
As obras mais recentes do campus da Universidade Lusófona preocupam-se em dar resposta não só às necessidades físicas mas também às ambientais. Exemplos disso são o edifício S, todo em madeira, climatizado através de energia geotérmica, e o edifício L, que além da climatização ecológica, tem uma arquitetura exterior que favorece o equilíbrio térmico.
O número de estudantes tem crescido de forma sustentada. De seis mil alunos, quando chegou em 1995 ao Campo Grande, a Lusófona passou para mais de 12 mil no ano letivo 2010/2011, distribuídos por 14 Cursos de Especialização Tecnológica, 50 licenciaturas, 73 mestrados e 6 doutoramentos. Nos seus quadros, a universidade conta com mais de um milhar de docentes e cerca de 400 colaboradores.
Apesar da vasta área de implantação atual, a Lusófona pretende continuar a expandir os espaços de ensino. Em 2010 entregou um projeto à Câmara Municipal de Lisboa que prevê aumentar a universidade em dez mil metros quadrados. Caso seja aceite, a concretização deste projeto levará à construção de salas de aula, laboratórios, auditórios e à substituição dos atuais parques de estacionamento à superfície por parques subterrâneos. O que diriam os operários da Lusitânia?
Eliano Marques




