As constantes alterações urbanas e a aceleração do dia-a-dia levantam questões sobre a organização de cidades e vias de comunicação. Para o arquiteto Gonçalo Byrne, a cidade é hoje fragmentada, um problema “particularmente complexo e sensível”.

As vias de comunicação, como as autoestradas e os caminhos de ferro, criaram ao longo dos séculos fissuras no território. Em busca de soluções para um problema contemporâneo, a arquitetura procura formas de coabitação de elementos opostos, como estradas e rios, sempre com o objetivo de melhorar a acessibilidade e comunicação das zonas em questão.
Pela mão do homem ou da natureza, as cidades modificam-se muito ao longo dos tempos. Parte de Lisboa, por exemplo, teve uma rutura e fragmentação brusca com o terramoto de 1755, o que modificou as suas vias de acesso e levou à criação de novos traçados de comunicação.
A fragmentação dos espaços da cidade e as vias de comunicação associadas à atual forma de vida – imediatista, centrada no momento, no aqui e agora –, criam novas distâncias entre a sociedade. O desenvolvimento das áreas urbanas é outro das questões a resolver. Através dos seus conhecimentos específicos, a arquitetura procura ajudar a compreender e minimizar esta problemática que é, para o arquiteto Gonçalo Byrne, “uma consequência da evolução das cidades”.
A metamorfose de Lovaina
Consoante os vários períodos da História, “a cidade construída, a cidade de pedra e a cidade da arquitetura” têm uma relação direta com as atividades, com os ciclos económicos, com as vidas das pessoas dessas mesmas épocas. “A vida das cidades alterna muito entre a degradação e a reabilitação”, explica Gonçalo Byrne.

Lovaina é uma cidade da parte flamenga da Bélgica. Hoje, à semelhança de Coimbra, direciona- se para os estudantes universitários com muitas das suas vias modificadas e construídas de forma a proporcionar uma melhor mobilidade. Contudo, esta cidade belga tem fundações de origem medieval. Na altura, era “uma cidade compacta” com acesso ao exterior apenas através de portões. Já no século XIX, a cidade começou a expandir-se e no século XX o sistema de defesa, a muralha, desapareceu, transformando-se numa importante via de comunicação para a cidade, com a criação de um anel em redor de todo o território que trouxe mais mobilidade à população.
Aliado ao novo anel de comunicação, a reconstrução de zonas afetadas pelas duas Guerras Mundiais, o aproveitamento das zonas industriais desativadas e o redesenhar das linhas férreas permitiu a Lovaina ganhar uma nova mobilidade e constituir-se como exemplo de uma solução com êxito para uma cidade fragmentada.
À procura de soluções
Vencedor do prémio Arquitetura e Interiorismo de Barcelona 2001, Manuel Aires Mateus apresentou o projeto de reabilitação do Parque Mayer que abrange a zona do Jardim Botânico ao Museu da Escola Politécnica. Já o arquiteto Raúl Hestnes Ferreira mostrou várias obras por si projetadas como o Tribunal da Moita ou a Biblioteca do ISCTE.

Projecto Parque Mayer de Manuel Aires Mateus
Na Semana de Arquitetura, subordinada ao tema Cidade Fragmentada, houve ainda espaço para os alunos do 2º ao 5º ano de arquitetura refletirem e procurarem soluções para zonas como Alcântara, Algés ou a 2ª Circular, onde vários elementos criam fissuras na comunicação destas áreas de Lisboa. De 25 de Fevereiro a 4 de Março foram elaborados projetos em mais de dez estúdios, aliando a arquitetura a áreas como o cinema e a fotografia. A Semana de Arquitetura foi organizada pelo Departamento de Arquitetura da Universidade Lusófona e pelo Laboratório de Arquitetura LABART.
Eliano Marques

