“O que é isto do jornalismo de ciência? É um desafio porque é tentar entrar num mundo muito fechado que é o mundo dos investigadores”. Foi assim que Ana Machado respondeu à pergunta. A ex-jornalista do Público sublinha que “ganhar a confiança” dos cientistas “é o mais difícil”.

Para Ana Machado, atual assessora de imprensa para a área de Ciência e Ensino Superior do Ministério da Educação, o mais importante no jornalismo de ciência é “tentar desmontar os fenómenos e dá-los a conhecer, cumprindo aquilo que são os principios básicos do jornalismo: informar e fazer a ponte entre as fontes e o público”.
Com uma carreira de 13 anos ligada ao jornalismo e seis na área da ciência, Ana Machado esteve na Lusófona a 30 de março, a convite de Helena Mendonça, professora responsável pela disciplina de Jornalismo de Ciência, do 3º ano de Comunicação e Jornalismo. No encontro com os alunos finalistas, a ex-jornalista lembrou que é graças à ciência e às diversas investigações que têm sido feitas ao longo do tempo que hoje podemos viver num mundo “menos poluente”, “com mais tecnologia”, ou “saber quando vai chover”, aumentando assim o conhecimento humano e empírico.
Comunidade científica vê jornalista como “um inimigo”
Se as áreas da política, da economia e do desporto costumam ter lugar garantido nas páginas de um jornal ou num canal televisivo, a área da ciência nem por isso. Desde há muitos anos que tem sido uma luta constante para que o jornalismo de ciência ganhe o seu lugar nos media. A ex-jornalista explicou que na imprensa esta é uma secção “mais pequena” e que dia em que ocupe mais do que uma página “é um dia de luxo”. Conquistar uma “primeira página é um luxo ainda maior”. E isto apesar de ser um facto que quando a notícia de ciência é bem elaborada e “mexe” com o público, é das “mais lidas na internet”.
Um dos problemas que agrava esta situação é o facto de a comunidade científica continuar a ser “muito fechada”. Apesar de os jornalistas já terem demonstrado aos cientistas que devem dar a conhecer mais o seu trabalho “para próprio benefício”, estes continuam a achar que os jornalistas são “um inimigo e que vão desvirtuar a mensagem que os cientistas querem passar. Preferem estar fechados no seu laboratório sem nunca dizerem nada sobre o assunto”, revela Ana Machado.
Por outro lado, a linguagem científica é outra das dificuldades por que passam os jornalistas de ciência. As pessoas têm “curiosidade natural” sobre o tema ciência, mas acabam muitas vezes por não perceber os conteúdos dos artigos e afastam-se desta área. A assessora reforçou a ideia de que esta especialização é “desafiante” porque todos os dias os jornalistas de ciência falam de temas que “não dominam” e isso obriga-os a “ler mais, falar com mais pessoas, a ter ideias criativas e a desmontar a mensagem de uma maneira simples”.
Falta de união gera fraqueza
Para a ex-jornalista, a “culpa da ciência” não ser tão estimulada nas redações é também dos jornalistas que a fazem. “Se nós nos juntássemos, se nos uníssemos mais e tivéssemos mais força perante a comunidade científica, teríamos mais apoio para que ela tivesse um melhor impacto, fosse mais falada e mais desejada pelos leitores”.
“Divulgar um pouco mais a ciência”, foi um dos motivos que levou Ana Machado a aceitar o convite para ser assessora. A ex-jornalista está ciente que em termos de media, esta é uma área que “tem ainda muito para fazer”. O grande desafio, na sua opinião, “é conseguirmos um espaço no jornal das oito, um espaço na abertura do noticiário de uma rádio, se queremos amplificar o tema”.
Nicole Rodrigues Matias

