De que forma a representação do corpo num manual escolar pode ser reflexo da sociedade? Colocar o “corpo como objeto de estudo numa perspetiva cultural” e assim “estudar a sociedade” é o desafio lançado por José Brás, investigador da Lusófona.
Analisado como se de uma máquina se tratasse, o corpo tem sido estudado numa “perspetiva cadavérica” considera José Brás, coordenador do Núcleo de Investigação Memória das Instituições Educativas e do Pensamento Pedagógico, do Centro de Estudos e Intervenção em Educação e Formação (CeiEF) da Lusófona.
Analisam-se os “ossos, músculos e articulações”, “o conjunto de peças”, e não o todo, a sua dimensão social e cultural. José Brás critica esta forma limitada de estudo pois, na sua opinião, o corpo é o reflexo da sociedade. Só analisando o corpo é possível perceber melhor toda a evolução social, uma visão “que tem sido difícil trazer para o campo da investigação”.
Manuais escolares criam estereótipos
Mais do que simples ilustração, a presença da imagem de um corpo num manual escolar é uma representação da sociedade. Agustín Escolano Benito, da Universidade de Valladolid, defende que os autores e os ilustradores dos livros escolares codificam modelos de corporeidade, a forma como o corpo interage, e que através da sua colocação nos mais diversos livros criam “modelos de representação” e “estereótipos”.
Agustín Benito explica que muitas vezes são criados estereótipos nas escolas “e adquirimos a informação” como sendo verdadeira assimilando-a durante um longo período de tempo. Esta criação de “modelos e paradigmas de comportamento” influencia-nos mesmo que involuntariamente a adquirir certos “códigos corporais”, valores, e a agirmos de acordo com o modelo social apresentado. Sendo estas representações culturais, elas transmitem o pensamento de um determinado país, a forma como determinada região vê e valoriza não só o corpo mas o próprio papel social das pessoas.
Na Guatemala, num livro do 2º ano encomendado pelo ministério da Educação existe uma representação onde é visível o corpo inteiro de um rapaz e de uma rapariga mas que, ao nível do cérebro têm desenvolvimentos completamente diferentes, assumindo o cérebro do rapaz uma dimensão claramente maior. Esta situação representa a forma como na Guatemala ainda são representados os géneros masculino e feminino. Apesar de poder não ser a forma como atualmente o homem e a mulher são vistos, Agustín Benito afirma que “as alterações das representações [do corpo] são muito lentas, processuais” e só vários anos depois de o conceito ser alterado é possível mudar também a forma como este é projetado.
É preciso derrubar preconceitos
Ao longo do seminário O Corpo, Memória e Identidade, vários oradores referiram a necessidade de derrubar os preconceitos na forma como se estuda o corpo. José Brás referiu que é preciso ver no corpo também uma lógica moral, mais do que simples partes que somadas dão ‘origem’ ao corpo. Apesar de na última metade do século XX as “ciências sociais terem vindo a debruçar-se sobre o corpo”, o investigador do CeiEF refere que ainda há um longo caminho a percorrer.
Durante a tarde houve também espaço para mais de 40 comunicações livres onde foram tratadas várias formas de manifestação do corpo através do seu papel e representação em áreas como a Arte, a Literatura, a Educação, a História ou a Filosofia. Entre os comunicadores estiveram professores, investigadores e alunos de várias universidades portuguesas e estrangeiras que participaram no seminário O Corpo, Memória e Identidade, organizado a 5 de maio pelo CeiEF e pela Faculdade de Educação Física e Desporto da Universidade Lusófona.
Eliano Marques


