13/04/2012 - 13:40

Quanto custa estudar no Ensino Superior?

A realidade do ensino superior português na capital contada por jovens em tudo diferentes, menos nos custos que acarretam em estudar. Quatro histórias, quatro exemplos.

piggybanktuition-2md

Estava em silêncio. Havia demasiado barulho à sua volta, no qual ela não queria participar. Por trás do vidro embaciado do comboio, entretinha-se a fazer desenhos com o dedo até ficar tão frio que tinha que parar para o aquecer. Aquilo dava-lhe sono. Aliás não era a primeira vez que adormecia naquelas condições. O percurso de casa, em Sintra, até à faculdade leva uma hora e meia mas, de manhã, tudo se processa em câmara lenta, pelo menos, para Ivonne.

Estudante de Psicologia na Universidade de Lisboa, Ivonne Zuzarte divide-se entre a vida estudantil e a laboral. O seu maior inimigo é o relógio. “Aprendi a desenvolver técnicas e estratégias que me ajudam a organizar um pouco mais o meu tempo e, uma delas, foi mesmo um planeamento semanal de todas as tarefas que tenho para realizar”.

A pressão de ser trabalhadora-estudante reflete-se no rosto frustrado de quem reprovou um ano. A adaptação ao ensino superior foi difícil de conquistar. A indisponibilidade para os amigos e família, para o ócio e atividades festivas, habituais nos jovens com 20 anos, contribuiu para o aumento da ansiedade e da vontade de querer desistir. Agora, pelo segundo ano no ensino superior público, Ivonne está mais confiante. “Aprendi a dar mais ênfase não à quantidade, mas aos pequenos momentos e à sua qualidade”, sorri.

Dividir despesas com os pais
À espera dos resultados da bolsa de estudo da Direcção-Geral de Ensino Superior, Ivonne faz contas ao que já despendeu. Pelo menos seis mil euros foram gastos entre propinas, transportes, alimentação, livros e fotocópias. Resta-lhe esperar pelos três anos e meio que faltam para concluir o curso. Uma estimativa que prefere deixar de parte, já que trabalha para conseguir pagar a maioria das despesas e, sobretudo, para não sobrecarregar os pais, ou pelo menos, como diz, “sobrecarregá-los menos”.

Os pais de Ivonne mostram-se impotentes ao ver o esforço da filha. “Neste momento, também não conseguimos arranjar outra alternativa, porque torna-se muito dispendioso a nível financeiro”, confessam. O apoio é importante mas mais do que isso, torna-se benéfico nas contas no final do mês.

Um salto para Lisboa
Com um sotaque reconhecível à distância, encontramos Gustavo Brás em Lisboa. Impulsionado pela necessidade de mudança de rotinas e à descoberta de novas realidades socioculturais, como o próprio justifica, saiu de Viseu para vir estudar para o ISLA, em Carnide. Aos 24 anos, terminou a licenciatura em Marketing, Publicidade e Relações Públicas, a sua vocação.

Mas ao contrário de Ivonne, este viseense teve uma vida mais desafogada. Em cada mês, Gustavo recebia 270 euros para propinas, 305 euros para o apartamento que dividia com mais dois colegas em Benfica e 400 euros para consumos básicos. Fazendo as contas, mensalmente eram cerca de 975 euros que os pais tinham que pagar. “Eles não queriam que eu fosse trabalhador-estudante porque podia ser prejudicial para a conclusão da minha licenciatura. Foi dispendioso mas foram feitos esforços para investir na minha formação”, justifica.

Filipe Casimiro partilha a mesma experiência de Gustavo. Também ele deixou o Algarve para vir estudar Cinema, Vídeo e Multimédia na Universidade Lusófona. “Gastava mil euros por mês”, conta. Quase a terminar a licenciatura, Filipe procura agora um estágio para conseguir frutos do investimento feito pelos pais. “Nunca se opuseram à ideia de ir para uma privada se era mesmo isso que eu queria. Suportaram os custos e eu fiz os possíveis para acabar o curso em três anos e pôr fim aos 350 euros mensais das propinas”.

E depois da licenciatura?
Os corredores da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa fazem hoje parte das recordações de Mariana Baptista. Os almoços prolongados, as festas e o convívio foram os intervalos das frequências e orais, características da vida académica. Mas para esta licenciada, que vive em Cascais, cada vez faz mais sentido continuar a estudar após a conclusão do chamado 1º ciclo. “O mercado está saturado, quanto maior for a especialização, mais probabilidades haverá de encontrar boas oportunidades de trabalho”.

E é por isso que aos 11.500 euros gastos na licenciatura, juntam-se agora os cerca de 1.875 euros do mestrado em Ciências Jurídicas Forenses, na Universidade Nova de Lisboa. Mas como a própria admite, esta é uma aposta pela competitividade no mercado de trabalho.

Com Portugal a viver uma grave crise económica, para muitos diplomados as hipóteses de trabalho desenham-se além-fronteiras. Quem aposta no Ensino Superior acredita que, mais tarde ou mais cedo, cá dentro ou lá fora, os conhecimentos adquiridos e o trabalho árduo vão acabar por compensar.

Mónica de Barros

Lido 1676 vezes Modificado a 13/04/2012 - 14:51

Parceria

logo-parlamento

Acordo Ortográfico

Os suportes comunicacionais do LOC são produzidos ao abrigo das regras estabelecidas no Acordo Ortográfico de 1990 e posteriores protocolos modificativos.

BLOG COMMENTS POWERED BY DISQUS