23/10/2012 - 14:30

Segredos do lago do Campo Grande

Em 1869, reinava D. Luís I, quando se iniciou a construção do lago principal do Campo Grande. Inserido num jardim público frequentado por nobres e realeza, renovado durante o Estado Novo, o lago é hoje um espaço à espera de um projeto que o devolva à vida. O LOC partiu à descoberta da sua história.

Quem sai da Lusófona, só precisa de atravessar a estrada em frente para o encontrar. O lago do Campo Grande deixa-se envolver por um espaço verde que mostra sinais claros de abandono. Os caminhos alcatroados, onde se pratica jogging ou se passeia, mostram buracos e fendas causadas pelas raízes das árvores. Por vezes, passam um ou dois agentes da GNR que patrulham a cavalo o jardim.
O antigo centro comercial Caleidoscópio está vandalizado: janelas partidas, graffiti e sujidade nas paredes, portas arrombadas. O lago permanece silencioso. O negócio do aluguer dos barcos a remos, atração principal durante muitas décadas, desapareceu, sendo rara a visão de interessados. As águas encontram-se cheias de lixo, com a esplanada também abandonada. Os peixes, meia dúzia de patos e um pequeno número de tartarugas são as únicas presenças constantes na área.
“Se fosse uma casa, seria assombrada, sem dúvida”, diz Fernando, lisboeta de 80 anos, que passeia por ali regularmente. “Nada tem a ver com antigamente. É um jardim fantasma”.

Campo grande

Campo Grande (1950). Fonte_Arquivo Municipal de Lisboa

Dos planos de D. Maria I à obra do Conde de Linhares

Foi D. Maria I que, em 1792, começou por discutir o projeto de um jardim nos campos de Alvalade, com a finalidade de criar uma zona arborizada que incluísse um circuito para corridas de cavalos. Quase dez anos mais tarde, em 1801, é o seu filho, o príncipe regente D. João, que ordena a D. Rodrigo de Sousa Coutinho, Conde de Linhares, que planeie a execução dos jardins que vão do Campo Grande ao Campo Pequeno.
Começou-se pela plantação de um extenso e variado arvoredo, ao estilo romântico, que inclui pinheiros, eucaliptos, amoreiras de papel, figueiras e pimenteiras. Em 1816, a conclusão da pista de corridas permite o início das corridas de cavalos.
Para agradar às esposas e famílias dos amantes de cavalos, a construção do lago principal do Campo Grande arranca em 1869, durante o reinado de D. Luís I. Nascem os passeios românticos de barco a remos. A abertura de um botequim no meio do lago para venda de bebidas, em 1900, torna a zona ainda mais aprazível. Instalado numa ilha acessível apenas por uma ponte de madeira, o estabelecimento permitia relaxar bebendo refrescos, enquanto se discutia os assuntos do dia. Um cenário de lazer idílico para quem tinha tempo e dinheiro.

Superfície duplicada

Tendo sobrevivido quase inalterado ao fim da monarquia e à primeira república, é nos anos 40 do século passado, em pleno Estado Novo, que o lago do Campo Grande sofre grandes alterações. A superfície é aumentada para o dobro e passa para os 2500 metros quadrados, nunca ultrapassando o metro e vinte de profundidade. Os jardins são recuperados sob a coordenação do arquiteto Keil do Amaral, numa equipa que reúne também Alberto J. Pessoa e Hernâni Gandra. A intervenção prolonga-se de 1945 a 1948.
É reconstruida a ponte, que passa a ser de betão, e adicionado um portão de pedra guardado por dois potros brancos, uma escultura assinada em 1946 por António da Rocha Correia. Na “ilha” nasce o Pavilhão Restaurante que servia almoços e jantares. O espaço volta a ser privilegiado tanto para passeios românticos como em família.
Em 1971, o Pavilhão é demolido em nome do progresso, para dar lugar a dois modernos restaurantes de luxo, sala de espetáculos com bar e lojas artesanais. Três anos mais tarde, o ano da revolução de Abril marca a última transformação recente. A 1 de novembro de 1974, é inaugurado o centro comercial Caleidoscópio. O novo edifício em L, contíguo ao lago, tinha várias lojas, cinema para 299 espetadores (o cineasta Lauro António foi o primeiro diretor de programação) e restaurante panorâmico.

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Mapa do jardim de Campo Grande_Fonte

À espera de milhão e meio de euros

Têm sido várias as promessas para devolver este lugar histórico à vida. O litígio entre a Câmara Municipal de Lisboa (CML) e o concessionário privado Empresa Turística do Campo Grande – responsável desde 1979 pela exploração dos equipamentos que deixou degradar –, arrastou-se por cinco anos nos tribunais, até 2010.
Em Março de 2011, o antigo centro comercial foi cedido pela CML à Universidade de Lisboa. O plano de recuperação passa pelo restauro do edifício e instalação de um moderno centro académico, recuperando alguns dos espaços comerciais antes existentes, como a livraria e o restaurante. As obras, orçamentadas em um milhão e meio de euros, deviam ficar prontas até final de 2012, mas ainda não arrancaram, por culpa da crise económica, alegam os responsáveis.
“Acho que já não vai acontecer” afirma Sandra Caldas, jardineira do Campo Grande, “Já apareceram aqui duas alunas da universidade, que estavam a fazer um projeto para uma cadeira, a analisar o edifício, mas ainda não aconteceu mais nada”, conta.

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Primeira Grande Regata de barquinhos a remos_Fonte


Regata de barquinhos a remos
Enquanto as obras não arrancam, o humorista Fernando Alvim protagonizou a mais recente intervenção no lago do Campo Grande. Com o apoio da autarquia lisboeta, organizou a “primeira grande regata de barquinhos a remos”, a 23 de junho.
Dezasseis barcos cruzaram as agitadas águas do lago do Campo Grande, enquanto um público divertido assistia. Um sábado que fez regressar a cor e a alegria a um espaço da capital que já foi nobre. Fernando Alvim diz que o êxito da iniciativa significa que é para continuar. Vêm aí novas páginas da história de um lago criado há 143 anos.

Diana Tavares
PS: Já depois da conclusão desta peça, a Câmara Municipal de Lisboa deu início às obras de requalificação dos Jardins do Campo Grande, a 1 de Setembro de 2012.

Lido 2321 vezes Modificado a 23/10/2012 - 16:14

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