29/11/2012 - 10:20

“Temos de dar novo sangue ao património fotográfico português”

AnaSofiaPenaforte-Apresentac¦ºa¦âoLivroVictorFlores-10Victor Flores é professor da Lusófona e membro investigador do Centro de Investigação em Comunicação Aplicada, Cultura e Novas Tecnologias. A Imagem Técnica e as suas Crenças: A Confiança Visual na Era Digital é o nome do seu mais recente livro, lançado no passado dia 15, no Arquivo Municipal de Lisboa. Uma obra dedicada ao estudo aprofundado das crenças visuais que envolvem imagens técnicas dos dois últimos séculos. 

Lusófona online: conteúdos – Uma semana depois do lançamento de A Imagem Técnica e as suas Crenças, que feedback recebeu do público?
Victor Flores (VF) – Estes últimos dias têm sido sobretudo de confrontação do livro nas bancas, e o feedback tem sido positivo. As pessoas que estiveram no dia do lançamento e mesmo as que não estiveram, mas que entretanto compraram o livro, dão-me os parabéns.

LOC Entre este livro e o seu anterior, publicado em 2007, intitulado Minimalismo e Pós-Minimalismo, que diferenças sentiu?
VF – O livro Minimalismo e Pós-Minimalismo foi a publicação da minha tese de mestrado, e teve uma maior distribuição no formato digital – embora com edição em papel, não houve um lançamento. Com este novo livro foi diferente, experimentei a sensação de poder levar um livro às bancas com direito a um lançamento a sério (risos).

LOC – Explorar as crenças prevalecentes sobre as imagens técnicas foi o mote para a criação deste livro. Por que é que este assunto lhe suscitou tanto interesse?
VF – Sinto que a nossa cultura visual contemporânea se confronta com uma série de paradoxos. Relacionamo-nos muitas vezes com estas imagens através de posturas que são muito antigas, apesar de nos considerarmos muito modernos e tecnológicos. Temos uma relação fugidia e despreocupada com as imagens, mas mantemos ainda posturas pré-modernas. Daí achar que a figura das crenças fosse uma das melhores formas de tentar agarrar este paradoxo.
As crenças são as ideias a que nos agarramos, e muitas vezes temos uma tremenda dificuldade para as largar, porque nos dão precisamente segurança. O objeto do livro tem a ver com um período de transição entre duas fases técnicas: o analógico e o digital. A ideia foi tentar perceber de que forma as crenças e o modo de apropriação das imagens técnicas anteriores à era digital foram ou não suspensas. Para isso, foi necessário estudar epistemologia para perceber como as crenças funcionam, como é possível desfixá-las e de que forma essas desfixações podem ser feitas.

LOC – Este livro demorou dois anos a escrever. Como se desenrolou esse processo?
VF – O processo é muito doloroso, é um momento de isolamento. Para mim é como se fosse um trabalho artesanal, no sentido em que vou escrevendo aos bocadinhos, em folhas de papel pequeninas, que depois risco, passo para folhas maiores todas riscadas com frases sobrepostas. Só quando esse amontoar começa a ter algum sentido, é que passo para o computador. Não sou uma pessoa que consiga escrever vinte páginas de uma assentada, se conseguisse escrever duas páginas num dia de trabalho ficava muito contente (risos).
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LOC – O livro saiu há uma semana, o lançamento ainda está relativamente “fresco”, mas já tem alguma ideia em mente para próximos projetos?
VF – Sim, submeti à FCT um projeto de investigação sobre Fotografia Estereoscópica [resulta de pares de fotografias que retratam uma mesma cena e que, vistas simultaneamente num visor binocular apropriado, produzem a ilusão da tridimensionalidade] e neste momento aguardo o parecer e a aprovação do projeto. Mas indiferentemente da decisão estou já a trabalhar sobre a questão da estereoscopia e a fotografia. Um dos meus principais interesses científicos é tentar perceber o que motivou o entusiasmo à receção da estereoscopia no século XIX e a sua aplicação à fotografia. Em Portugal, temos milhares de exemplares estereoscópicos guardados em arquivos. Já fiz o levantamento de uma das maiores coleções em Portugal, que pertence a Aurélio da Paz dos Reis, com mais de 4000 pares estereoscópicos. Mas existem muitas mais, a maior parte destas imagens nunca foi estudada ou sequer vista através de meios adequados.

AnaSofiaPenaforte-Apresentac¦ºa¦âoLivroVictorFlores-22LOC – O que podemos esperar desse novo projeto de investigação?
VF – O projeto é formado por uma equipa de investigadores da área da fotografia e da imagem e está previsto o lançamento de um livro, uma conferência internacional e a possível disponibilização de um site com as imagens utilizadas neste trabalho. É uma forma de mostrar o nosso trabalho e internacionalizar a investigação feita na Lusófona. A fotografia portuguesa está muito pouco estudada e projetos como este podem interessar e motivar mais pessoas à sua descoberta. É surpreendente a quantidade de imagens encaixotadas ainda por descobrir, temos de dar novo sangue ao espólio fotográfico português.   

Paulo Ferreira
Redação LOC

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Lido 4041 vezes Modificado a 30/11/2012 - 17:28

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