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05/02/2014 - 15:30

Uma aventura no Andar Nobre do Parlamento

Seis seguranças. Uma máquina de detetar metais e outra de raio-x. Entrega de identificação na portaria. Subir acompanhado no elevador. Não, não estamos numa prisão de alta segurança na Rússia. Estamos no Palácio de S. Bento, em Lisboa, prestes a aceder à biblioteca da Assembleia da República.

Ao chegar ao piso da biblioteca da Assembleia da República, e depois de obedecer às regras de circulação no Palácio de São Bento, deparamo-nos com uma porta de vidro automática que convida a entrar. O cheiro a livros sente-se desde o primeiro minuto. E a conhecimento também. Em frente há um corredor com três funcionárias sentadas às secretárias. São elas que recebem quem chega e orientam os leitores. Só depois de percorrermos esse corredor é que encontramos uma outra porta, mais tradicional, de madeira, que nos leva finalmente à sala de leitura.

Sentado a um canto, ao pé de uma janela, encontra-se um homem engravatado a ler um jornal. Casimiro Miro é motorista da instituição há 28 anos e frequenta a biblioteca "quase todos os dias". Não se ouve mais nada a não ser o virar vagaroso das páginas do seu jornal.

No espaço que alberga 170 mil obras, a vasta maioria relacionado com Direito e com a atividade parlamentar, domina a madeira de carvalho do Norte. Estantes, cadeiras e mesas de leitura tentam recriar o ambiente de uma biblioteca conventual renascentista. O site do parlamento disponibiliza uma síntese sobre as peripécias que antecederam a realidade que se encontra perante os nossos olhos. O documento data de 2001 e foi produzido por José Luís Tomé, na altura o responsável pela biblioteca.

192 anos de história

Em 1821, o deputado José Portelli, propõe a criação de uma "Biblioteca das Cortes". Mas foi preciso esperar 15 anos para que, em 1836, por decreto do ministro Passos Manuel, referendado por D. Maria II, a ideia fosse concretizada. Já as cortes estavam instaladas no antigo Mosteiro de S. Bento da Saúde ou dos Negros, o atual edifício do parlamento.

Durante décadas, a biblioteca, com mais de sete mil títulos, pouco se aproximou dessa designação. Em 1855, foi necessário ocupar a sala onde os livros estavam arrumados para a cerimónia de eleição de D. Pedro V. As obras foram desalojadas e empilhadas sem cuidado. Uma situação que perdurou e foi denunciada, conta José Luís Tomé, a 14 de março de 1863, pelo jornal A Revolução de Setembro.

O escândalo chegou ao parlamento, mas passaram quase três décadas até se nomear o primeiro bibliotecário, o historiador Clemente José dos Santos, que exerceu o cargo de 1892 a 1893. Apesar disso, José Luís Tomé explica que "a biblioteca não tinha aquele desenvolvimento, quer em obras quer em catalogação, que seria de desejar". Muito por culpa das sucessivas transferências dos livros de sala em sala.

Só em 1921 se define, finalmente, que tipo de organização dar ao espólio e duas décadas mais tarde, em 1941, a biblioteca instala-se em definitivo nas quatro salas do Andar Nobre do Palácio de S. Bento. Na sala de leitura, hoje, domina o busto do seu fundador, Passos Manuel, que até à Revolução dos Cravos tinha a seu lado o busto de António de Oliveira Salazar. O primeiro, esculpido pelo português Francisco Franco (conhecido pela sua escultura do Cristo-Rei, em Almada), e o segundo pelo francês Anatole Calmels, ambos executados em exclusivo para o Palácio de São Bento.

Ao serviço dos deputados

Ao fundo começa-se a ouvir chegar a diretora da Biblioteca da Assembleia da República, Rosa Barreto. Licenciada em História, ocupa o cargo há três anos. Estava nervosa com a entrevista. "A biblioteca é um serviço de documentação e informação", começa por dizer. "Diariamente presta apoio ao trabalho dos senhores deputados, dos parlamentares, das comissões, dos serviços da própria assembleia da república", completa.

Sempre com as mãos em cima dos joelhos, falou sobre a resposta da biblioteca às necessidades da atividade parlamentar. Toda a documentação que vai sendo editada em Portugal sobre análise política, económica e sociológica é adquirida pela biblioteca, assim como as obras de direito que são "todas compradas". Para além dos livros, quem usar a biblioteca tem também à sua disposição "300 títulos de revistas nacionais e internacionais".

A biblioteca conta ainda com um núcleo do "Fundo de Livro Antigo" onde se encontram exemplares dos séculos XV a XVIII. Os livros têm proveniência de várias cidades, como Veneza e Madrid, e estão acessíveis aos leitores "a não ser que a obra não esteja bem conservada". Fruto de um trabalho de acondicionamento e limpeza bem conseguido, quase todas as obras são consultáveis sem restrições. "Depois, para manusear o livro antigo, dão-se algumas orientações", esclarece.

"Somos melhor que o Google"

Como é que a biblioteca se posiciona em função de vivermos numa sociedade de informação e do conhecimento? "Somos melhor que o Google, como diria Júlio de Castro", brinca. As bibliotecas têm de se organizar para continuarem a ser pontos de acesso ao conhecimento e, para isso, têm de manter os seus acervos, em papel e formato digital, numa adaptação contínua, "mas continuando a ter toda a informação necessária para a atividade do Parlamento". E para isso existem os bibliotecários que são "os grandes pesquisadores e organizadores de informação", conclui.

Já há vária documentação que chega em formato digital, como a informação produzida pelas instituições da União Europeia, o que Rosa Barreto considera essencial nos dias de hoje pois com o "problema" do crescimento e do armazenamento, o espaço já é "pouco" para tanto conhecimento. Ainda assim, considera um "privilégio" e "muita sorte" estar numa "geração que teve a oportunidade de acompanhar a modernização das bibliotecas portuguesas". Visivelmente mais calma que no início da entrevista, esboça um sorriso e confessa: "não me arrependo nada da escolha que fiz".

Como o motorista Casimiro, muitos estudantes universitários, investigadores e deputados passam os seus dias na Biblioteca da Assembleia da República. Muitos procuram o espaço para uma pesquisa académica, uma investigação jornalística ou apenas um lugar tranquilo de leitura informal para ler o jornal. Mas primeiro têm de entregar a sua identificação.

BI:
Localização:Andar Nobre do Palácio de S. Bento
Volumes: 170 mil
Livro Mais Antigo:Biografia de Plutarco (1491)
Temas mais Consultados:Matérias sobre a vida parlamentar dos séculos XIX e XX e a legislação
Postos de trabalho:5 bibliotecários, 4 técnicos profissionais de bibliotecas, 1 técnico superior especialista em informação Europeia, 3 auxiliares de biblioteca.

Daniel Morgado
Redação LOC

 

Reportagem realizada no âmbito
da parceria com o Parlamento Global

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Lido 5228 vezes Modificado a 05/02/2014 - 16:53

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