17/04/2012 - 11:31

Conhece a D. Carmen?

Cabelo muito curto, tez morena, resposta na ponta da língua, um poço sem fim de energia. Das quatro da tarde à meia-noite, Carmen Bacelar dá as boas-vindas para lá do portão da Lusófona, no balcão do Ponto Único de Informação (PUI). De manhã é voluntária na Casa de Repouso Magui.

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As chaves amontoadas em cima da mesa vão desaparecendo uma a uma para dentro da caixa. Sentada ao computador, D. Carmen, como todos a conhecem, dá baixa das chaves requisitadas por professores, alunos e funcionários. Nas horas de maior movimento quase não há tempo para respirar, mas sobra sempre espaço para o humor. Com a voz poderosa que a caracteriza, inquire com um ar sério o docente à sua frente: “O número do NIB, por favor?”. Este retribui com o número de professor.

Entrou para a Lusófona como empregada de limpeza e assim que surgiu a oportunidade mudou-se para o PUI. É aí que quem entra na universidade a pode encontrar todos os dias, a partir das quatro da tarde. Dá informações, esclarece dúvidas ao telefone, entrega e recebe chaves e comandos de salas.

A outra vida de todos os dias
Aos 61 anos, o trabalho na Lusófona é só metade da vida desta mulher. Às nove da manhã, Carmen entra como voluntária na Casa de Repouso Magui, no Campo Pequeno, que acolhe 12 idosas. Foi lá que esteve a avó, razão que ditou os primeiros contactos com a instituição.

d-carmen-oneApós dezassete anos em casa, a cuidar das duas filhas, a vida obrigou-a a voltar a trabalhar. Maria Guilhermina Vasques, a proprietária da casa Magui, recebeu-a. Durante três anos, Carmen trabalhou das nove da noite às nove da manhã, até que decidiu parar com as madrugadas. “Comecei a ficar cansada das noites”, mesmo dormindo, “não é um sono descansado”.

Afastou-se, assim, durante um ano mas ao entrar para a Lusófona, no Campo Grande, as manhãs livres e a proximidade levaram-na a regressar à casa de repouso, mas como voluntária. Maria Guilhermina reconhece que, apesar dessa condição, Carmen “é como se fosse uma funcionária. Está sempre ao meu lado quando é preciso”. É assim, que todos os dias, até entrar na Lusófona, Carmen faz as compras, acompanha as idosas ao cabeleireiro ou ao médico, vai ao banco, trata do economato.

Não gosta de tarefas mais próximas, com mais intimidade, por receio de se ligar demasiado, como já aconteceu no passado. “Ao fim destes anos, eu gosto das pessoas mas não me posso dedicar porque depois o sofrimento é maior quando morrem”. Essa é a pior parte do trabalho, porque não lhe custa a morte, mas sim a dor. Na sua opinião, “para morrer não é preciso sofrer”.

“Devia ser um exemplo para muitos”
Tanto no lar como na universidade, Carmen Bacelar é considerada uma pessoa humana, bem- disposta, mas com um feitio especial. Quando acha que tem razão, ou lhe provam que está errada ou mais vale a pena desistir de contrariá-la. Teresa Matias, residente no lar, garante que Carmen “transmite ternura, carinho, amizade, paz. Devia ser um exemplo para muitos”, pela forma como pensa no outro.

É talvez por se interessar tanto pelo outro que odeia fazer refeições sozinha. Sempre gostou de estar em contacto com o mundo e em pequena queria ser relojoeira, pois gostava da minuciosidade do ofício. Promessas só faz uma: deixar de fumar, um dia.

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A vida nem sempre foi fácil para a funcionária, mas como a própria diz, não quer sofrer mais. “Já não vejo as coisas da mesma maneira, agora é tudo nas calmas, viver um dia a seguir ao outro, minimamente bem, comigo e com os outros”.

Fez tudo o que queria mas não o que tinha sonhado. Maria Carmen Soares Bacelar tem no horizonte um objetivo: ir para Luanda, para perto das netas. Ensiná-las a falar corretamente português e dedicar-lhes tempo suficiente. E está prestes a realizar esse sonho. No final de abril, inicia uma licença sem vencimento de seis meses, para poder dedicar-se à família. Não vai ter saudades do lar, mas da convivência que a universidade lhe dá “já vai ser diferente”, confessa.

Mónica de Barros

Lido 6269 vezes Modificado a 19/04/2012 - 10:37

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