O reconhecimento da Ciência Política foi tardio em Portugal. Marcelo Rebelo de Sousa participou no congresso «20 anos da Ciência Política em Portugal» e recordou o percurso de autonomização desta disciplina. O professor e político português comentou que, apesar das dificuldades e limitações, sobretudo em situações difíceis como as atuais, a Ciência Política “é uma base” que “dá uma evidência, um quadro mental” para quem a estuda.
LOC – Como vê o percurso da Ciência Política até hoje?
Marcelo Rebelo de Sousa – A Ciência Política demorou muito tempo a autonomizar-se como disciplina, como um domínio que fosse aceite cientificamente. Quer o Direito, a própria Economia, quer outras Ciências Sociais, viam com suspeição o aparecimento deste domínio próprio. Demorou muito tempo, houve vários precursores nos anos 50, 60, 70 e só depois a partir, realmente, dos anos 80 e 90 foi um florescimento em escolas e o contributo da Universidade Lusófona foi fundamental.
LOC – De que forma podem os jovens contribuir para o desenvolvimento da Ciência Política?
MRS – Podem contribuir, primeiro, gostando daquilo que estão a fazer – e é fácil gostar da Ciência Política – depois, encontrar um domínio, porque a Ciência Política é muito vasta. Há um mundo enorme, têm que escolher o seu pequeno mundo. Depois com essa formação eventualmente ganhar outras formações, podem partir da Ciência Política e fazer mestrados noutras realidades complementares. A Ciência Política é uma base. Dá uma evidência, um quadro mental, mas depois é preciso explorar pistas dessa base (mais económicas, sociais ou políticas, mais internas ou internacionais), depende do que a pessoa quer fazer. Esse enriquecimento é importante porque depois as saídas profissionais criam-se. Este é um período muito mau em termos de crise, mas existem lá fora, e mesmo cá dentro, oportunidades ligadas à vida empresarial, ao ensino, à comunicação social, às experiências de ONGs e IPSS ou mesmo Misericórdias. Há que tentar novas pistas. A Ciência Política também dá um pano de fundo bom de formação para isso.
A Comunicação Social “cria factos estudados pela Ciência Política”
LOC – Qual a relação entre a comunicação social e a Ciência Política?
MRS – A comunicação social é ela própria tema da Ciência Política. Mas ela [comunicação social] retrata, projeta ou cria factos estudados pela Ciência Política. Por outro lado, a comunicação social pode contribuir para uma formação cívica, não apenas nos que estudam Ciência Política mas para os cidadãos em geral – interessando-os pela política, não os deixando afastar da política, não os deixando perder a paciência para os políticos e desconsiderar os políticos – isso é naturalmente um papel formativo que a comunicação social, para além do entretenimento ou da mera informação, também tem.
Mónica de Barros

