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05/05/2014 - 13:04

Helena Garrido: “Não faço balanços de vida”

2013 foi tudo menos um ano de azares para Helena Garrido. A professora de jornalismo da Universidade Lusófona venceu o Prémio Excelência de Jornalismo Económico e em novembro tornou-se a primeira mulher diretora de um diário de economia – o Jornal de Negócios.

Recusa-se a balanços de vida, porque ainda tem “muito coisa para fazer”, mas sente-se feliz por trabalhar com uma equipa “extraordinária”. Agora, quer “reforçar a liderança” do título que dirige, continuando a apostar na  independência e no rigor.

Como se sente por ser a primeira mulher a assumir a direção de um jornal diário de economia?
Eu confesso que não me lembrei disso quando me desafiaram a assumir a direção do jornal. Não me lembrei, até porque tenho trabalhado com várias mulheres em direções, como a Helena Marques, no Diário de Notícias, a Bárbara Reis, que neste momento é diretora do Público, e a Graça Franco que é diretora da Rádio Renascença. Há várias mulheres já em cargos de direção e não me lembrei, confesso, quando aceitei o desafio que seria a primeira mulher a assumir a direção de um jornal de economia, que é um universo muito marcadamente masculino. Refiro-me ao universo das fontes de informação e dos leitores, porque o universo das redações é um universo feminino, mesmo nas redações dos jornais de economia.

A igualdade de género ainda é um problema no jornalismo?
Não me parece. Podem existir problemas de igualdade de género ou pode parecer que existem porque não existem de facto muitas mulheres em cargos de chefia. Os cargos de chefia nos órgãos de comunicação social são ainda marcadamente masculinos, mas penso que as razões que podem explicar esse facto estão muito relacionadas com a forma como as sociedades estão organizadas e que leva muitas mulheres a recusar assumir cargos de chefia.

Lembra-se do seu primeiro dia no Jornal de Negócios?
[esboça um sorriso] Lembro-me. O Jornal de Negócios (JN) é um jornal com uma equipa fantástica, está aí o grande segredo do JN, a equipa extraordinária que tem, não só uma equipa muito qualificada, em termos técnicos e em termos jornalísticos, mas também uma equipa em que as pessoas têm grandes qualidades de caráter, grandes qualidades pessoais e humanas que permitem trabalhar num ambiente extraordinariamente amigável, cooperativo e… Feliz.

O Jornal de Negócios tem um percurso inédito no panorama português. Nasceu digital e migrou para o papel. Neste momento, qual é a importância do jornalismo online?

É extremamente importante. Eu nem dividiria o jornalismo entre online, papel, televisão... O que há é jornalismo. E depois há peças jornalísticas. Essas peças jornalísticas podem chegar aos cidadãos de formas muito diferentes, podem chegar através das plataformas digitais ou de suportes físicos como o papel. Eu diria que há informação e a grande diferença em relação ao passado é que ela pode ser distribuída de diversas maneiras, quer por via de um suporte físico quer por via de um suporte digital.

Mantém o blog “Visto da Economia” desde 2007. Como vê este universo?

Os blogs são extremamente importantes sobretudo para fazer opinião, não como fonte de informação. O grande problema em relação aos blogs é o perigo de um cidadão comum os confundir com fontes de informação. A grande diferença entre um blog que não esteja associado a um órgão de comunicação social e outro que esteja é que o primeiro não tem uma lei de imprensa a regulá-lo, não tem um código deontológico, não tem uma metodologia jornalística de confirmação dos factos antes de os transmitir aos leitores.

E que lugar ocupam as redes sociais?
As redes sociais para os jornalistas são fundamentais como ferramentas de trabalho. Nós hoje já não contactamos com as fontes apenas encontrando-nos com elas ou telefonando para elas, nós também nos encontramos com as fontes e também podemos obter informação e esclarecimentos através das redes sociais.

O que é necessário para melhorar o jornalismo em Portugal?

O jornalismo atravessa um problema que está relacionado com a inovação tecnológica. Até à era da Internet os jornalistas tinham o monopólio da informação, o que significa que os cidadãos em geral só tinham acesso à informação através dos jornalistas. Os comunicados do governo, das instituições em geral, das empresas, do mundo, chegavam primeiro às redações antes de chegarem aos cidadãos. E, desse ponto de vista, os jornalistas eram intermediários na informação. Com as novas tecnologias, os jornalistas perderam esse monopólio e as instituições podem comunicar diretamente com os cidadãos.

E quais as consequências disso?

O jornalista perdeu esse monopólio mas tem de dar aos cidadãos aquilo que é hoje ainda mais importante que no passado: a garantia de que a informação que presta aos cidadãos é uma informação verdadeira, rigorosa, credível e independente dos poderes.

Como vê o futuro do jornalismo?
Não faço ideia, não sou vidente [risos]. A tendência em termos de jornalismo é no sentido da integração. Hoje, estão cada vez mais expandidas as fronteiras entre jornalismo televisivo, jornalismo de rádio e jornalismo de escrita. Esse tipo de divisão foi aquela que mais foi afetada, digamos assim, pelas novas tecnologias. Hoje, um jornalista já tem de ser completo, tem de ser um jornalista que sabe fazer televisão, que sabe fazer rádio, que sabe escrever. Já não vai ser possível dizer-se “eu sou jornalista de rádio”, “eu sou jornalista da escrita”, “eu sou jornalista da televisão”. O jornalista do futuro e, até diria, já do presente, tem de saber comunicar nas maneiras diferentes que exigem cada um destes meios: televisão, rádio e escrita.

No ano passado ganhou o prémio Excelência de Jornalismo Económico, atribuído pela Ordem dos Economistas. Que outros desafios pretende alcançar na sua carreira?
Os desafios que eu mais valorizo são os desafios do conhecimento. Os desafios de estar sempre a saber mais e mais.  Neste momento, o desafio fundamental, para mim, é reforçar a liderança do Jornal de Negócios e fazer aquilo que o JN já é, um jornal de economia de referência. No fundo, é continuar um caminho de dar mais e mais informação, com mais e mais qualidade, num jornal que tem no seu ADN a independência e o rigor, os fatores-chave da credibilidade e de um bom serviço focado naquilo que o leitor quer e precisa. 

Sente-se realizada?
[pausa] Não faço balanços de vida, acho que não vale a pena, ainda tenho muita coisa para fazer [risos].

Quer deixar alguma mensagem aos seus alunos, que querem ser os jornalistas de amanhã?

A todos os jornalistas: o segredo do jornalismo é a curiosidade, ser curioso, estar a olhar para o mundo, observar o mundo e fazer sempre muitas perguntas. Com uma pergunta de referência base, que as crianças começam logo a fazer: porquê?

Daniel Morgado
Redação LOC

Lido 6266 vezes Modificado a 13/02/2015 - 17:08

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